Brincos

por Alice

-Fui ao dentista hoje.

Aparentemente não há nenhuma relação entre o casaco sendo jogado sobre o seu sofá gasto e desconfortável e a recente consulta declarada por ela. Ajunta o casaco, pendura no porta-chapéus na parede de tinta azul esburacada paralela à porta. Um boa-noite-como-vai-posso-entrar soaria estonteantemente deslocado.

Ela olha com desprezo para o ponto do sofá onde deveria haver uma almofada e senta ao lado, cruzando as pernas na direção contrária como por medo de ser contaminada pela espuma esfarelada do seu sofá de loja de usados. Você não senta, mas tem vontade de jogar o casaco dela no mesmo lugar.

– Precisa lavar essas cortinas. Que lugar, que lugar imundo, como te mete num lugar imundo desse?

Um punho se fecha por razões muito distintas que são, precisamente, evitar verificar as cortinas na presença dela, ainda que por vislumbre, e enfatizar um desejo já enraizado nos seus nervos de dar-lhe uma boa razão para ir à merda do dentista.

Tem todas essas coisas flutuando pesadamente ao redor de vocês agora. Dá vontade de esticar a língua e provar um floco, seria angústia, orgulho, nojo, vontade de cuspir na única almofada que o seu sofá de dois lugares tem? Apertar contra o céu da boca e mastigar bem devagar, por mais familiar que fosse. Ou talvez alguma coisa totalmente nova, como preocupação ou quem sabe precaução? Por que importa, o gosto esteve na sua garganta por anos e você nunca quis saber se gostaria de engolir.

– Aquele é o quadro que eu te dei?

Dessa vez a mão se abre com tanta violência quanto se atiraria contra os dentes perfeitamente alinhados dela e você se volta para a patética figura em tons pastéis torta na parede azul esburacada oposta à porta. Não há mais tempo de fingir que não ouviu e você se recorda fracamente de ter retirado a moldura pra guardar mas retornado a mão ao saco de lixo a tempo de salvar as únicas flores que ela te deu. Não tinha se arrependido tanto quando o fez.

Também recorda de ter regado o jardim dela que por descuido cultivava tudo que comumente seria impedido de crescer entre margaridas, e de despejar cada gota d’água com as próprias entranhas gritando que você regava muito mais que isso.

– Fui ao dentista, você me pediu tanto que eu fosse.

Você sabe que não havia pedido tanto assim, talvez sugerira vez ou outra irritada com as reclamações sobre dentes manchados de café, café que você fazia, único café que ela tomava, como ela tem se virado sem o seu café? Mas agora você analisa o quadro, não distingue flor de pincelada a esmo nem cor de pétala de cor que sobrou na palheta e não se quis jogar fora. Ela disse que comprara numa ruela de um velho irlandês, mas a tinta tem tanta subjugação desnecessária impregnada que faz você preferir que ela tivesse qualquer apreço por velhos ou ruelas ou você.

– É, é o seu quadro.

Seu ruído seco perfura o que se espremia em sua garganta, e em meio à rouquidão de uma voz improdutiva por dias e à densa névoa que cobria a mesa de centro de madeira carcomida entre vocês, sabe que pode gritar de novo. Sabe que ela se encontra cômoda ao reencontrar sua insegurança, embora você não saiba que não ecoa na cabeça dela como na sua.

Talvez ela sinta falta do seu café, mas resolva não fazer instantes antes de girar sob os calcanhares. Ela percebe, você vê, você sabe, ela sorri. Você odeia quando ela sorri.

– Você precisa lavar essas cortinas. Por que esse lugar imundo, meu deus? Não tem elevador, como pode haver cinco andares em um edifício sem elevador?

Você dá de ombros. Que importa, pensa, sem se permitir imaginar algo melhor. Cortinas sujas, tinta esburacada, sofá destruído e madeira arruinada é o seu melhor agora.

Ela está usando brincos. A cabeça dela esteve apoiada nos seus ombros por noites a fio e você nunca soube que ela usava brincos.

– Desde quando você usa brincos?

Você odeia quando ela sorri sorrisos de presunção.

– Você deveria tentar. Tem pele delicada, sempre te disse, mas uma predileção por sordidez que nunca compreendi.

Que tem uma coisa a ver com a outra, pensa. Brincos com inclinação a subir escadas. Levou um tempo até você perceber que não era isso a que se referia. O fôlego para perguntar o que ela fazia ali se juntou em seus pulmões, mas encontraram lábios cerrados.

– Brincos de pérola, você ficaria bem com brincos de pérola. Me faz um café? Essas cortinas…

Sem café, você já decidiu isso. Chá que seja, não há água nem de torneira caso ela queria se demorar. Ela ignora o quadro, agora o sofá, as paredes, a mesa de centro e você. Implica com as cortinas, o que a isenta de admitir que não ignorou o estado deplorável em que você se encontra. Moletom sem sutiã, meias infantis, sem brincos de pérola. Você pensa que já esteve pior, mas isso acontece toda vez. Você nunca acredita estar se afogando antes de uma boa lufada de oxigênio. O que ela faz ali se não gosta das cortinas?

– Que importa. E eu odeio quando você sorri.

Ambas se surpreendem, você por ecoar uma voz tão limpa e comandante, ela por desconhecer um território onde você comande. Que se dane, você gosta do azul daquelas paredes, e das estampas dos papéis anteriores que surgem pelos buracos.

– Vim aqui, vim aqui porque…

E quando ela se vira percorrendo o olhar pelo minúsculo e entulhado apartamento do edifício sem elevador no bairro mais detestável da cidade, você aceita que precisa escolher entre duas certezas: você já sabe por que ela está ali e esteve esperando que ela estivesse;

Ela recolhe o casaco e tenta se entender com a maçaneta quebrada.

ou talvez você tenha alguns brincos guardados.

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