Fôlego

por Alice

Eu tinha medo de me abrir e deixar sair coisas demais, de me deixar sangrar e esquecer de estancar  a hemorragia. Já aconteceu uma vez e eu tive muito medo de que acontecesse de novo, e eu não poderia saber se você me salvaria ou me assistiria desfalecer. Agora não faz diferença alguma, eu mesmo arrumei suas coisas, três vestidos amassados e dois pares de sapatos naquela maleta velha que você trouxe quando chegou e molhou o que pôde. Tudo que eu encontrei aqui em casa, porque sem perceber você já tinha se mudado havia muito tempo, pouco a pouco levando seus sussurros e pedaços para outra cama, foi jogar a toalha molhada em outro chão e eu fiquei com o abajur ligado esperando você voltar para apagar quando me desse boa noite. Do mesmo jeito arredio e sorrateiro que chegou, juntou o fôlego e foi embora.
Eu esperava alguma iniciativa sua, nem que fosse levar tudo para longe de uma vez, principalmente aquela parte que já estava dentro de mim, como se eu tivesse engolido uma parte de você. Acho que te engoli mesmo, era o que eu tinha vontade de fazer quando te via dançar pela sala de jantar, trejeitos calculados e graciosos de quem nasceu para ser bailarina, mas resolveu cuspir no destino. Queria te colocar nos braços e apertar, apertar, até que nos fundíssemos e batêssemos um só. Queria te engolir pra te salvar de alguma coisa, nem que fosse de mim mesmo. Posso ter te engolido sem perceber, no final das contas, porque quando notei você já era meus tecidos, já era músculo e hemoglobina, e – você não imagina o quanto isso é assustador, eu que sempre me orgulhei de ser dono de cada parte de mim, devorando e me deixando ser devorado por outra pessoa.
Eu queria muito que você soubesse que o abajur continua ligado porque eu não tenho força nem coragem de rolar para o outro lado da cama no meio da noite e sentir que seu travesseiro ainda está frio. Que eu ainda ponho duas xícaras e dois pires na pia e os lavo mesmo sabendo que uma metade está limpa. Que eu ouço todas as manhãs aquele disco de jazz que você odiava porque Ella te fazia chorar. Eu e minhas duas xícaras nos sentamos em um canto do sofá e ficamos esperando você entrar na sala e gentilmente levantar a agulha durante a minha canção preferida. Eu e minhas duas xícaras ouvimos o disco até o fim porque não aparece ninguém para levantar a agulha, ninguém para desligar o abajur, ninguém para esquentar seu travesseiro, ninguém para pedir dois torrões de açúcar para o café para que eu pudesse então colocar três e ver um sorriso tímido de quem foi descoberta. Meu café não tem açúcar, sem você minha cozinha está tomada pelas formigas, eu preciso que você volte rápido para me resolver.
Eu acho que passa. Pode ser, não é? Eu posso secar o carpete e posso conviver com o disco tocando até a última faixa, mas é difícil agora. Dá vontade de colocar alguém do outro lado do colchão, mesmo sabendo que ela nunca bocejaria bom dia do mesmo jeito, só pra ter a quem destinar o que era destinado a você. Mas eu acho que passa, já passou antes, vai passar de novo, que passem as formigas, que passe a chuva e molhe tudo de novo.
Só me deixe tomar fôlego.

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