Margarida

por Alice

Ele representa tudo que dói.

Você gosta disso?

Tudo que é grande e assustador, embora se esforce para achar um lugar confortável em si para ela. Seu rosto é coberto de sustos pontiagudos mal feitos que arranham e sobressaltam. Ela pensa se deve avisá-lo. Seu pai não usa isso e certamente não aprovaria. Ela pensa nas margaridas se enfiando pela grade do quintal.

Agora eu quero que você diga que gosta.

Ela não acha que seja bonita. Tem essas ondas de inocência que caem pelo rosto e contornam as bochechas pintadas de dentro pra fora, e pés que dançam despreocupação forjada e ninguém desconfia. Só falam dos olhos. Todo mundo fala dos olhos dela.

Ele ruboriza perto dela. De corpo inteiro. Ela nota, porque nota bastante. Se esquece de piscar os olhos de que falam. Tem olhos de tristeza suave, melancolia leve, a ponta do céu. Ele não nota os olhos, mas fala deles. De como são pequenos e de como gosta deles. Pede se pode por a mão, assim, só um pouco.

Pode?

Ela não tem medo de nada. Pode escalar montanhas e perseguir animais e plantar cenouras e usar um martelo. É a mais corajosa de todas, embora admita que ainda seja a maior por ali e essa possa não ser uma comparação justa. Por isso quer ser professora. Esteve observando como se faz e achou que era uma solução satisfatória para os seus quatorze meses de experiência extra que faltam aos outros. Hoje ela vai ensinar a pintar um coelho usando papel crepom.  Não há alunos interessados mas ela explica tudo detalhadamente mesmo assim.

Dele, também não tem medo. É outra coisa que aperta e mastiga e mastiga e engole o que fica preso nos dentes afiados. Semana passada vagou por três raios de sol procurando um esconderijo, mas foi obrigada a reconhecer que o domínio do lugar já o pertencia. Poderia ficar debaixo do cobertor: ora, só covardes fazem isso com a luz acesa. Saiu mesmo assim. Ele estava esperando. Dizem que ela tem olhos lindos, mas tão fantasiosos.

Vamos ver uma coisa.

Quando crescer, ela vai fumar. Que nem aquelas meninas grandes que ficam encostadas nos muros das casas, mas ao contrário delas, vai gostar. Pegou o resto de um cigarro jogado uma vez e experimentou, pra sentir por onde aquela névoa entrava. Quando o fumo invadiu sua garganta, pareceu que tudo tinha solução. E gostou. Disseram-lhe que algumas pessoas também bebem coisas amargas e ruins porque não gostam da vida nem de Deus. Ela sorri esperando que Deus tenha visto o que fez com a ponta queimada que achou. Promete que quando crescer vai comprar um monte de cigarros grandes, e um pote inteirinho de azeitonas. Será que Deus também condena as azeitonas? Quando crescer, ela vai encher os pulmões de fumaça e tirar caroços de azeitonas da boca com os dedos no meio dos restaurantes.

Não tem ninguém olhando.

Ele está mais agitado hoje. Revira as roupas com pressa, como se procurasse algo importante. Pergunta de novo e ela diz que sim, gosta, mas continua tentando se cobrir. Ela pensa se ele não percebe que mente, porque mente todas as vezes e todas as vezes torce para que alguém apareça. Não grita, não chama, não pede para parar, mas ela torce. Não entende por que Deus se importa tanto com gente engolindo fumaça, se ela está ali torcendo. Ele pergunta de novo, ela mente.

Como todas as boas mentiras, ela se deteriora.

Será que um dia as margaridas vão invadir a casa?

Recorta toda a cartilha do ano passado para os seus alunos. A professora, a de verdade, deixou-a usar o mimeógrafo da escola, então tenta se concentrar ao máximo no trabalho. Todas as letras do alfabeto são contornadas cuidadosamente pela tesoura sem ponta, o que é um absurdo. O que fazer com as formas vazadas? Ela já é grande para isso. E tão corajosa. Ninguém vê coragem em seus olhos, mas ela tenta se convencer de que é. A ponta da tristeza, melancolia suave, um céu leve e um oceano de bravura.

Eu sei que você gosta.

Ela pensa nele. Em quando ele chega, quando ela despedaça margaridas, ele é uma sombra amarela que toca seu ombro. Um toque e ela treme. Arranca as ervas, revira a terra, absorve-se. Mas a sombra a leva mesmo assim. Pensa no cheiro, que jura ser de sangue, mas é um sangue marrom, sujo, arrancado, não merecido. Às vezes o cheiro a deixa tonta. Dobra a letra A ao meio para cortar fora o triângulo e o cheiro vem, invencível e insuportável.

Agora a letra B.

Me diz, você está gostando?

Talvez hoje pintemos as letras com papel crepom. Igual ao coelho. Você imerge na água e aperta. Vai manchar as suas unhas, mas não tem problema. Imergir e apertar, e a tinta sai. Vai ser em aquarela. Dá vontade de imergir e ficar lá. Você vai ficar manchada, mas não tem problema. Você não precisa voltar.

Está me ouvindo?

Está cansada. Porque pensa nela e também pensa nele, e tem pena.

Diga, criança.

Não.

Gosta?

Não.

Você gosta disso?

Não.

Ela era a mais corajosa de todas.

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