Meus trinta anos

por Alice

Só mais uma, eu penso a cada sopro. Depois mais uma, e em pouco tempo tenho uma porção  de sopros e uma porção de velas. Três dezenas, mais especificamente. Uma dezena para cada grande realização da minha vida, que foram precisamente nesta ordem, nascer, aprender a escrever e trocar um pneu sozinha. No próximo ano terei uma a mais para comemorar ter sobrevivido a este ano. E a parte mais entusiasticamente excitante sobre tudo isso é que cada vela enfiada no glacê aconteceu como eu esperava, sem nem um pneu furado a mais ou menos. Vivas pra mim.

O primeiro pedaço de bolo não existe, porque eu corto logo o segundo. Eu não mereço, meu novo pássaro não merece porque ainda não aprendeu nem como empurrar a portinhola da caixinha na gaiola com o bico para comer, e nenhuma das pessoas sobre as quais corro o olhar merece.  Mas esse bolo me custou três horas de árduo trabalho, incluindo tiquetaquear com o relógio até que a superfície estivesse com o tom de dourado perfeito e fazer uma obra de arte surrealista com glacê branco e azul. Então eu o faço em pedaços, cada fatia com a espessura de três centímetros exatos e distribuo cegamente ao que passam por perto. Eu gostaria muito de tagarelar sobre como foi difícil moer as nozes para que não esfarelassem mas não ficassem grandes demais, ou mesmo sobre como leite condensado passou do ponto na primeira vez, mas a verdade é que eu me importo com isso tanto quanto tenho pessoas interessadas na história.

A verdade é que eu me importo com tão poucas coisas que me sinto um tanto culpada por aceitar meu próprio bolo. Eu me sinto como uma criança que sabe não ter sido o exemplo sonhado pelos pais e sabe que eles não sabem o que realmente aconteceu ao gato da vizinha, mas está recebendo o presente de Natal mais fantástico que uma criança poderia receber. Eu não acho que meus trinta anos sejam um presente fantástico de fato, mas eu fiz coisas muito piores com os gatos dos vizinhos para sorrir e agradecer e desembrulhar afobadamente como deveria. Passei grande parte da infância ouvindo cochichos sobre como meu futuro prometia, e apenas pequena parte da adolescência ouvindo cochichos sobre como eu estava passando por uma fase em que minha cabeça estava ocupada demais trabalhando no meu crescimento para fazer algo útil mas ora, meu futuro ainda prometia. Fui enganada pelo futuro, pelos cochichos e o meu presente de Natal veio sem pilha.

O fim da adolescência não trouxe grandes novidades. Eu não me sentia medíocre, como o resto da humanidade provavelmente acreditava que eu fosse. Na realidade, eu comemorava secretamente cada objetivo atingido, como mais um ano de faculdade que se ia ou uma borracha usada lealmente até o fim. Eu colocava mesmo muito esforço nessas pequenas tarefas, e muito poucas vezes parei para pensar o quanto eles eram valorizados pelos meus observadores. Não que eu ignorasse tão convictamente suas opiniões. Não ignorava de maneira alguma, embora esse fosse um superpoder que desejei ter várias vezes. Só que, para mim, havia empenho naquelas coisas e um empenho que eu jamais imaginei que pudesse sair de mim. Não que eu fosse boa. Apenas me imaginava muito pior.

A idade adulta, sim, foi uma surpresa. Principalmente pela pilha de expectativas que eu vi desmoronar sobre mim. Elas caíram com um estrondo terrível, e por alguns meses foi difícil me convencer de que a vida já havia chegado, e eu a tinha com todo seu potencial nas mãos. Era um potencial vergonhoso. Parecia uma criatura pequena, enrugada, que deveria ter pelos mas não surgia um único, um monstrinho encolhido nas minhas mãos. Eu tratei dele como pude, mas nunca cresceu muitos centímetros mais. Porque, assim como com meu bolo de aniversário, eu não me importava. Nada atraía minha atenção a ponto de atrair também os meus esforços, e foi assim que eu acabei como cozinheira, só para mim mesma, escritora, só para relatórios, costureira, só para remendos, e médica, só para dores de cabeça. Aos trinta anos.

Talvez eu acabe me interessando por pássaros. O vendedor me disse que o termo correto é passerídeo, e eu já estava entediada antes de ele pronunciar a última sílaba, mas é uma esperança. Algo a mais para lembrar de alimentar e limpar de vez em quando, uma ocupação de alguns dias para achar um nome apropriado, quem sabe resolva me aprofundar no assunto e me torne uma especialista em passarídeos, só para o meu passarinho.

Agora eu me sento para esperar os convidados irem embora. As pessoas parecem estar, se não se divertindo, ao menos apreciando meu bolo. É um bolo simples de pão de ló, bem recheado e com muitas nozes. Não é ruim, eu sei disso, mas, quem sabe, não é o melhor que eu poderia fazer. É só um bolo de aniversário. Vivas pra mim.

Anúncios